As cidades que fundem Portugal e Espanha

Criação da Eurocidade Valença-Tui só veio tornar efetivo o viver das gentes das cidades portuguesa e espanhola, cada uma situada de um lado do rio Minho. De Valença, todos os dias há quem vá para Tui trabalhar e de Tui muitas crianças chegam todas as manhãs ao jardim-escola. É a verdadeira Ibéria

Ricardo, com cinco anos, e Breogan Padín (“Breo” para os mais próximos), com dois, são duas das seis crianças galegas, que frequentam, atualmente, a creche e jardim de infância da Santa Casa da Misericórdia de Valença. Os meninos, são filhos do alcaide de Tui, Carlos Padín, que praticamente todos os dias atravessa a fronteira de bicicleta elétrica, para tomar café ou o pequeno-almoço, fazer compras ou resolver assuntos relacionados com a Eurocidade Valença-Tui.

Há oito anos, as duas cidades vizinhas, uma em cada margem do rio Minho, seguiram os passos das localidades de Chaves e Verín, pioneiras na cooperação transfronteiriça entre Portugal e Espanha, e formalizaram uma velha união natural. Agora também partilham equipamentos e atividades desportivas e culturais, dentro do que a burocracia e as políticas, nacionais e europeias, lhes permitem. As autarquias portuguesa e galega, anseiam por aprofundar ainda mais a cooperação, mas enquanto o futuro não chega, o ritmo da vida das pessoas entre as cidades prossegue como sempre, ao ponto de se fundirem numa só.

“Não somos uma eurocidade de título, somos um contínuo urbano de facto. A proximidade física não é como Chaves e Verín, que se encontram a mais de vinte quilómetros uma da outra, aqui estamos tão próximos, que é com naturalidade que os tudenses e os valencianos desfrutam da eurocidade”, considera Padín, que em poucos minutos percorre a pedalar a velha ponte metálica sobre o Minho, a curta distância que separa a sua casa em Tui da zona urbana vizinha em território português. A menos de dois quilómetros, o modo de funcionamento do ensino pré-escolar português agrada ao autarca galego. “Optei por Valença para que os meus filhos tenham contacto com o idioma de Portugal, porque é enriquecedor para as crianças, mas também por causa da flexibilidade de horários. Em Espanha, este serviço só funciona de manhã”, justifica.

Aurora Teixeira, diretora pedagógica da creche e jardim de infância da Misericórdia, diz: “Os nossos preços e horários fazem a diferença. E também os cuidados com a alimentação que temos são maiores. As famílias dizem-nos que estão contentes. Os miúdos adaptam-se muito bem. Temos 95 crianças neste momento e “galeguitos” temos seis. Sempre houve, mas agora cada vez há mais”. De cá para lá, a questão dos horários, mas a nível laboral, é do agrado de muitos portugueses. David Palhares, 22 anos, um empregado de mesa, que reside em Valença e trabalha num espaço de tapas e bebidas em Tui, conta que escolheu empregar-se do outro lado da fronteira, por causa “da liberdade”, que é trabalhar “cinco horas de 2.ª a 5.ª-feira, e noites de fim de semana, e com um salário melhor que em Portugal”.

Fruto do casamento de uma espanhola (Merche) e de um português (Luís), que se conheceram há cerca de 30 anos numa discoteca de Tui, David considera-se “praticamente um filho da eurocidade”. “Costumo dizer que sou português e espanhol, 50/50. A minha vida faço-a toda em Espanha. Trabalho cá e os meus amigos e conhecidos são todos espanhóis. Moro e durmo em Portugal”, diz, rindo: “Todos os dias, vou e venho. A cada dia troco de país quatro ou cinco vezes. Para quem não conhece esta realidade, é interessante. Quando digo que vou a Espanha e já venho, e que vou dormir a Portugal, é engraçado”. E depois a sua língua é uma espécie de “portunhol”: “Com a minha mãe falo castelhano e com o meu pai falo português. Portanto, quando falo português ninguém nota que sou espanhol e quando falo espanhol ninguém nota que sou português”.

O que a formalização de uma eurocidade veio acrescentar à realidade já existente foi a criação de um calendário comum de eventos desportivos e culturais, e o apoio à frequência dos habitantes de um lado e de outro de equipamentos como a piscina de Valença, que já funciona com mais galegos do que portugueses (ver texto nas páginas seguintes), e o Conservatório de Música de Tui, onde abundam alunos lusos.

Jorge Mendes, presidente da Câmara de Valença e percursor da eurocidade, considera que é na atividade desportiva que mais se nota a colaboração institucional iniciada em 2010. “O nosso vereador do Desporto e da Cultura, José Monte passa mais tempo em Tui do que em Valença”, comenta, destacando: “A nossa piscina é a de Tui. Em 110 mil utilizadores, mais de 50% são galegos”. O autarca aspira, no entanto, a um aprofundamento das relações, nomeadamente, com a criação, a breve trecho, de um plataforma digital que interligue os serviços camarários dos dois municípios, de uma rede de transportes comum e de um grande evento conjunto marcante. Pugna, de resto, para que as políticas dos dois países e europeias venham a facilitar a vida das populações transfronteiriças a outros níveis. “Gostaríamos de mais integração na Saúde e na Educação. Na Saúde principalmente, era importante, em vez de estarmos a usar o truque do cartão europeu de saúde para podermos recorrer aos serviços lá”, assume. O usufruto das oportunidades proporcionadas pela proximidade dos dois territórios por parte da população ultrapassa em muito aquele projeto.

Há gente de Tui que mora em Valença, porque há mais oferta habitacional, os fogos são mais baratos e de maiores dimensões que os galegos. Também há muito galego a trabalhar no comércio e nas zonas industriais tanto de Valença como de Vila Nova de Cerveira, devido aos altos níveis de desemprego em Espanha. Do lado de lá, os combustíveis são mais baratos e em compensação do lado de cá, o café sai mais em conta. E ainda no campo desportivo, abundam atletas que utilizam equipamentos e até recursos naturais, como o rio Minho, comuns.

Avelino Martinez, 55 anos, um polícia municipal de Tui, conhecido por “Lino”, campeão mundial de judo para veteranos em 2017 e duas vezes campeão europeu, treina nos clubes da modalidade das duas cidades há dez anos. “No início vim treinar em Portugal, porque em Tui não havia judo. O mais perto era Vigo e deslocar-me era complicado. Então conheci o clube Juvalença, vim, trataram-me uma maravilha e fiquei até hoje. Sem esta gente não teria conseguido chegar onde cheguei”, conta, assumindo-se um entusiasta da eurocidade. “Procuro divulgá-la para onde quer que vou. Somos dois povos que estamos tão perto um do outro e também me toca a nível familiar. Os meus avós eram de Moledo (Caminha). Sempre gostei muito de Portugal e venho sempre, umas quatro ou cinco vezes por semana, venho comer, tomar café”, refere.

Manuel Garrido, segundo na modalidade de C1 no Campeonato Mundial de Canoagem na África do Sul, em 2017, e empresário de restauração em Tui, treina diariamente nas águas do Minho e também do Lima, em Ponte de Lima, terra do campeão Fernando Pimenta. “No rio estou sempre em contacto com portugueses e no restaurante, a nossa vista é Portugal. Aqui, não há fronteiras”, afirma.

Em cafés de um lado e de outro da fronteira, não é de estranhar a presença de jornais portugueses e espanhóis para satisfazer toda a clientela. Jaime Castro, proprietário do Café Bar- Restaurante Esplanada em Valença, explica: “Nós aqui, se fecharem a fronteira, pode ter a certeza que 80% dos clientes vai embora”. Por isso, tem sempre, pelo menos, o “Faro de Vigo” e o “Jornal de Notícias” no balcão. Filho de pais espanhóis, nascido em Cristelo-Côvo, Valença, mas de nacionalidade espanhola, Jaime considera: “Para mim Tui e Valença são a mesma cidade. Tenho casa aqui e lá, tenho o meu negócio aqui, faço compras e tenho relacionamentos lá. Uma Eurocidade faz todo o sentido do Mundo”.

Por Ana Peixoto Fernandes (JN)