EVENTO NA CÂMARA MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO “GOLPE DE 64: O ESTILHAÇO DA NAÇÃO”

Estilhaço da Nação_2

Bombas de gás pimenta atrapalham, mas não impedem reflexão sobre o golpe de 64 e as consequências para o Brasil e a América Latina. Os 50 anos do golpe de estado que tirou do poder o presidente eleito João Goulart e instalou no país uma ditadura militar que perdurou por 21 anos foram lembrados no dia 1 de abril, terça-feira, na cerimônia “Golpe de 64: o estilhaço da nação”, realizada pelo vereador Leonel Brizola Neto, PDT, no Plenário Teotônio Vilella, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Marcada para iniciar às 18h30, a cerimônia foi prejudicada por bombas de gás pimenta jogadas pela polícia militar em manifestantes que estavam em frente à Câmara Municipal, na Cinelândia, atingindo a escadaria principal de acesso, por onde entrariam os convidados. Para isolar o gás, as portas que ligam o saguão ao interior do Palácio Pedro Ernesto foram fechadas e os convidados que comporiam a mesa e que tinham chegado àquele momento tiveram que ficar com os demais no plenário. Os que estavam a caminho não puderam entrar, pois toda a área em torno da Câmara ficou encoberta pela nuvem de gás e o comércio ao redor fechou as portas. 

Leonel Brizola Neto

Leonel Brizola Neto



 “Lamentavelmente, essa é a política de segurança do nosso Estado, que nos remete de forma sombria, 50 anos depois do fatídico golpe que impediu as reformas de base, aos horrendos  anos de exceção, gerando pânico e insegurança, ao invés de garantir a tranquilidade e o direito do povo se manifestar”, disse o vereador Leonel Brizola Neto. “Como não houve punição dos culpados, não houve uma mudança de mentalidade. A botinada na porta, a criminalização da pobreza e a excrescência da justiça em emitir mandato de busca coletiva nas favelas demonstram que o autoritarismo dos anos de exceção se infiltrou perigosamente em nossa sociedade, mais um efeito nefasto dos 21 anos de ditadura. E o secretario de segurança é oriundo dos órgãos de repressão… Esta é a base da segurança pública do estado”, lamentou o vereador Brizola. 

Entre os convidados que falaram na tribuna do plenário estavam o advogado de presos políticos nas auditorias militares, Humberto Jansen Machado, a presidente da Associação Cultural José Marti, e ex-presidente nacional do PCB, Zuleide Faria de Melo, o deputado federal e ex-ministro do Trabalho, Brizola Neto, o Secretário de Justiça do governo Leonel Brizola, e ex-deputado federal do PDT, Vivaldo Barbosa, o jornalista editor do jornal e site Bafafá, Ricardo Rabelo, o presidente municipal do PC do B, Waldemar de Souza, e o Presidente da Rede de ONGs da América Latina o cientista político Sebastián Baldunciel. Entre os palestrantes confirmados, o professor doutor em Literatura, Ivan Cavalcanti Proença, ex-Capitão da Guarda do Ministério do Exército, que defendeu os estudantes de um massacre na Faculdade de Direito da UFRJ, em 1 de abril de 1964. O Golpe foi uma aliança entre militares e civis, com apoio norte-americano. 

“Hoje, nem os que apoiaram a derrubada de Jango têm coragem de falar em revolução. Foi golpe mesmo, e a ditadura foi perversa, cruel, matou, torturou, destruiu famílias, traumatizou crianças”, disse o advogado de presos políticos Humberto Jansen Machado. Para a socióloga Zuleide Faria de Melo, “o golpe foi feito em função do grande capital e preparou o Brasil para a chegada das multinacionais”. Foi consenso entre os oradores que a queda de João Goulart se deveu às reformas de base que buscavam desenvolver o Brasil com bases autônomas, nacionais, e que o golpe resultou de uma aliança entre civis e militares. Apesar do grande apoio popular de Jango, havia um poderoso esquema civil de apoio político e financeiro, que tornou possível o êxito do movimento. “A ameaça comunista propagandeada pela mídia foi o combustível usado para envenenar a classe média contra o presidente que era um trabalhista, nacionalista, convencido de que as reformas eram fundamentais para o desenvolvimento do país e fixação do homem no campo”, disse Vivaldo Barbosa. Este projeto autônomo ameaçava interesses e contrariava a política de hegemonia norte-americana na região, e não por acaso os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer a legitimidade do governo militar no Brasil.

 “O Brasil foi o modelo de exportação para todos os golpes ocorridos na América Latina. No Chile o embaixador brasileiro, Antonio Câmara Canto, era tão envolvido com os militares golpitas que derrubaram Allende que era conhecido como o quinto da junta (militar)”, disse o jornalista Ricardo Rabelo, filho de José Maria Rabelo, exilado após o golpe de 1964. “Eu tinha seis meses de idade quando o golpe aconteceu no Brasil, e por isso não senti, mas no Chile, que considero minha segunda pátria, onde me alfabetizei,  tinha 10 anos quando meu mundo desmoronou e me lembro como se fosse ontem (…) meu irmão Pedro de apenas 17 anos, um adolescente, ficou preso no Estádio Nacional, sendo torturado por dois meses, minha mãe implorava um visto de saída ao embaixador brasileiro (…) acabamos refugiados num campo da ONU, com a roupa do corpo, enquanto meu pai e meu irmão mais velho se refugiaram na embaixada da Argélia, um apartamento de 150 metros quadrados, onde se amontoavam mais de 300 pessoas, se revezando para sentar,deitar e usar o banheiro. Ficaram assim por três meses”, contou, emocionado, Rabelo, que só pode pisar em solo brasileiro aos 17 anos, após 16 anos de exílio. “A cada dia temos mais elementos para corrigir a Lei da Anistia, não corrigir é uma traição à pátria”, disse o jornalista.

Sebastián Baldunciel

Sebastián Baldunciel



cientista político Sebastián Baldunciel, chamou atenção para o fato de que “na América Latina, toda vez que um governo popular chegou ao poder houve reação violenta dos militares para proteger os interesses das burguesias locais e estrangeiras; esses militares que foram formados pela Escola das Américas (…) embora tudo façam para afastar os países latino-americanos uns dos outros, a nossa história e a história da luta de classes e começou há 200 anos na época do imperialismo colonial”. Hoje essas burguesias não precisam mais de golpes militares, agora os golpes são econômicos, e com operações cirúrgicas das agências de inteligências que tem o objetivo de que ainda continuemos sendo colônias deles, com nossos trabalhadores pobres, gente morrendo de fome, e as empresas que estão aqui mandam todos os lucros para fora..”. Ler o discurso completo aqui:http://politicayopinion.blogspot.com.br/2014/04/meu-discurso-no-evento-golpe-de-64-o.html 

 

Carlos Daudt Brizola Neto

Carlos Daudt Brizola Neto



O ex-ministro do Trabalho, Carlos Daudt Brizola Neto, fez um discurso lembrando Getúlio Vargas, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro: “O sistema econômico perverso implantado aqui pela ditadura a serviço das multinacionais é, como dizia Darcy, “um moinho de gastar gente”. O golpe de 64, cujos efeitos perduram até hoje, foi para nos manter como eternos fornecedores de matéria prima, de riqueza bruta. A América latina continua subjugada”, finalizou.